Bueno amigos...
Depois de passados exatamente 30 dias sem postagem alguma, retorno com um assunto que achei interessante: as representações da saúde mental no cinema.
O olhar insistente do cinema para os "distúrbios psíquicos" deve-se ao fato de que esses distúrbios têm repercussão profunda nas pessoas, assim como a violência. Os distúrbios mentais mostrados na tela remetem àquele fundo patológico, de loucura ou de alteração, que está presente em todos nós.
No cinema de Hollywood, por exemplo, há obras em que os distúrbios psíquicos, os transtornos mentais e a loucura servem como fio condutor da narrativa. Nessa direção, encontramos obras expressivas, como Psicose (Hitchcock, 1960), Um estranho no ninho (Milos Forman, 1965), O expresso da meia noite (Alan Parker 1978), O silêncio dos Inocentes (Jonathan Demme, 1991). Entre tantos outros, são filmes que nos apresentam personagens psicóticos, estranhos, literalmente fora da casinha e portanto, levam o espectador a formar uma certa imagem da doença mental e da loucura. Entretanto, observando-os de maneira mais detida entendemos que tais filmes tratam de modalidades de inconformismo, resistência e negação do suposto estilo de normalidade, proposto pelas regras sociais. Na perspectiva de um olhar clínico, acredita-se que estas obras podem instigar uma reflexão mais lúcida acerca das diversas patologias mentais.
No cinema nacional, por sua vez, alguns filmes tratam do tema da saúde mental e distúrbios psiquiátricos, e entende-se que, principalmente nos trabalhos da década de 60/70, há uma produção importante, competente na decifração dos distúrbios sociais desencadeando a loucura individual, durante a ditadura militar. Um exemplo nessa direção é o filme Matou a família e foi ao cinema (Júlio Bressane,1969), que mostra uma sociedade com valores em transformação, em que se percebem modificações no domínio da ética, da moral, do comportamento, da linguagem e também da maneira como é tratada a loucura.
Com esta temática, o filme Azylo muito louco (Nelson Pereira dos Santos, 1969/70), adaptação do romance O alienista, de Machado de Assis, que serve, sobretudo, como uma grande metáfora para a atmosfera caótica dos anos 70. A narrativa de O alienista, especificamente, é importante porque demonstra a fina ironia de Machado de Assis a respeito da maneira como a loucura é vista, no século XIX, pelas classes sociais e principalmente pelo olhar da medicina, marcada pelo espírito positivista regendo o conhecimento científico. Ou seja, mostra como a construção do saber sobre a loucura se instituiu a partir do discurso autoritário do médico, da classe dominante. Por este viés, percebe-se igualmente como ocorre o nascimento da clínica, como se processam as internações, de maneira arbitrária e a partir de critérios pouco confiáveis.
De um modo mais abrangente, os audiovisuais, o cinema, as telenovelas, as minisséries, etc, vão sinalizando
novas perspectivas, novos olhares sobre o problema da saúde mental, da loucura e das diversas possibilidades terapêuticas. Numa perspectiva clínica, o filme nacional que talvez represente com mais propriedade o tema da loucura é Bicho de Sete Cabeças (Lais Bodanzky, 2000), em que um jovem
(Rodrigo Santoro) é internado pela família, contra a sua vontade, no manicômio, algo que hoje é proibido pela Legislação Federal.
Bom pessoal, espero que tenham gostado do assunto de hoje. No próximo post "Reforma Psiquiátrica no Brasil".
Um grande abraço e até breve.
Roges

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